Aprendendo a desenvolver software no ecossistema WordPress – parte I: começando o caminho
Aprender a desenvolver software e, sobretudo, se divertir com isso é algo que faço desde 1989 quando comecei a programar em linguagem BASIC por meio de um livro que morava em casa já fazia um tempo e começou a me interessar pelos códigos e letras esquisitas que eu não sabia ler direito o que ali havia.
Depois do BASIC, fui fisgado pela programação e de lá para cá muitas linguagens passaram, experiências, trabalhos, projetos e uma vida toda de formação em cursos, estudos, leitura de livros, tutoriais entre tantas outras coisas. Fiz primeiro o curso técnico em Processamento de dados de 1993 a 1995 na ETE Lauro Gomes em São Bernardo do Campo, onde estudei mais formalmente o BASIC, C, Pascal, Cobol e Clipper. Formação essencial sobre como aprender a programar, exercícios desafiadores e o desenvolvimento de uma forma de pensar muito diferente do que eu possuía até então.
Em 1997, entrei na Faculdade de Engenharia Elétrica e Computação da UNICAMP e segui estudando linguagens e tecnologias. Ali aprofundei em Assembly (sobretudo para Motorola 68000), mais linguagem C e comecei a desenvolver projetos em Java, o que fui fundamental no meu mestrado alguns anos depois. Mas, estávamos em plena era da WEB e há comecei a estudar HTML em seus primórdios, entender a necessidade de estruturas como XML e estruturas básicas de organização da informação online.
Depois, já trabalhando em projetos no campo da cultura digital e inclusão digital a partir de 2003 conheci PHP e MySQL pela necessidade de trabalhar com os primeiros CMSs mais robustos e fui apaixonado anos por Drupal, tecnologia na qual coordenei o desenvolvimento de um dos projetos mais importantes daquela época, a Rede Humaniza SUS.
Muitas coisas caminharam de lá para cá e fui trabalhar em várias áreas diferentes, mexer mais com dados e acabei chegando no ecossistema Python por onde fiquei anos produzindo scripts para análises de dados, visualizações, modelos estatísticos, aprendizagem de máquina e muita coisa divertida nesse período do começo da ciência de dados como disciplina de pesquisa e desenvolvimento. Essa época coincide com minha fase como docente no curso de Gestão da Informação da Universidade Federal de Goiás e o Python de fato transformou as possibilidades técnicas que tínhamos até então para profissionais mais híbridos e transversais como são as demandas para os formados nas áreas da Ciência da Informação em termos de tecnologia.
Até que surge o projeto Tainacan em 2014 e de lá para cá todo meu foco em tecnologia no que se relaciona com desenvolvimento de software se voltou para WordPress e vem sendo assim nos últimos 12 anos. Os motivos pela escolha do WordPress e as razões pelas quais ainda hoje achamos essa ter sido e seguir sendo uma excelente escolha será tema de um post futuro.
A questão que quero começar a trabalhar aqui é a questão central com a qual eu pessoalmente tenho convivido desde o final de 2025 quando efetivamente decide voltar para minhas atividades na Universidade de Brasília e focar mais na coordenação técnica do Tainacan e como ele pode chegar em outras frentes de ação considerando as demandas da área de arquivos, bibliotecas e todas as novas possibilidades na era da inteligência artificial. A questão fundamental é: como formar um desenvolver WordPress para atuar de maneira efetiva no Tainacan e seus desdobramentos? Com o mercado aquecido, as dificuldades de contratar pela universidade desenvolvedores mais experientes e, sobretudo, o desafio de formar novas pessoas comecei a enfrentar esse problema pelo lado didático e metodológico e tentar construir um programa de formação que tenha algumas condições de contorno que eu gostaria de levar em consideração:
- uma formação híbrida que pudesse ser seguida por quem é de origem da área da Ciência da Informação, da Ciência da Computação, de Sistemas de Informação, Engenharias e áreas transversais que tenham interesse em aprender a programar, criar soluções, desenvolver ferramentas e se conectar no ecossistema WordPress+Tainacan como uma forma de solucionar suas necessidades de gestão da informação de objetos digitais;
- um caminho completo que permitisse quem não tem experiência alguma em programação a seguir os passos e gradualmente se aproximar desse ecossistema e trazer sua bagagem de outras áreas e contribuir da forma que considerar interessante;
- um caminho experimental que permita criar soluções e gerar resultados a cada etapa intermediária sem a necessidade de ser um bloco monolítico onde os resultados apenas apareçam ao final da jornada;
- um percurso autoinstrucional e formal por meio de disciplinas na graduação, pós-graduação e cursos eventuais de extensão que possamos criar em parceria pelos membros do laboratório. A ideia é oferecer diferentes possibilidades de entrada e percurso para diferentes profissionais que possuem diferentes necessidades. Se o percurso está todo mapeado e com listas de habilidades que podem ser construídas por diferentes caminhos, alguém pode se conectar de diferentes formas e ainda assim ter a sensação de fazer parte do processo mesmo que já aproveitando seus percursos e formações anteriores. No entanto, também quero oferecer disciplinas de graduação e pós-graduação para formações que possam ser experimentadas pelos estudantes dos cursos da área da Ciência da Informação em minha experiência em sala de aula na Universidade de Brasília. Entendo que esse contato direto, em sala de aula, teórico e experimental com os estudantes é de uma riqueza enorme e pode contribuir muito para aprofundar o projeto e gerar robustez nas metodologias de ensino, nos exercícios e projetos práticos bem como no mapeamento de referências e materiais de apoio que possam atender a necessidades diversas de formação.
Construir esse caminho de ensino e aprendizagem se transformou no meu projeto atual sobretudo por compreender que essa não é uma resposta fácil pois não existe um único livro, um único curso, um único site, um único tutorial ou qualquer tipo de meio que possa imaginar que traz essa resposta de forma sistematizada como estou elaborando aqui. Vai se encontrando pedaços ao meio do caminho e, a depender da forma que você percorra esses pedaços, você pode se perder em derivas pouco úteis, desatualizadas e que te façam perder um tempo enorme até perceber que se desviou do objetivo principal.
Tudo isso dito, aqui justifico a razão pela qual farei essa série de postagens para sistematizar e juntar esses pedaços de caminho que fui identificando ao longo dos últimos meses.
Os primeiros passos da pesquisa
Comecei inicialmente procurando cursos online. Existem vários, muitos mesmo, sites, canais no Youtube e plataformas de cursos que oferecem opções para formação de desenvolvedores para WordPress. O problema da maioria dessas opções é que ou são muito antigas e não cobrem as inúmeras inovações pelas quais o WordPress passou nos últimos anos (sim, a plataforma mudou demais de 2019 para cá e muita coisa que você conhecia antes nela se tornou desatualizado ou mesmo obsoleto). Esses detalhes podem ser acompanhados pelo roadmap do WordPress e toda sua série histórica de lançamentos.
Dessa busca inicial, dois recursos se sobressaem e que quero registrar aqui:
- A plataforma oficial da comunidade WordPress iniciou de alguns anos para cá a construção de alguns cursos que valem ser seguidos pela didática, facilidade de linguagem e atualização dos conteúdos:
- Udemy – a plataforma disponibilizou um curso bem atualizado agora no começo de 2026:
- WordPress Vip Learn – em minhas buscas, encontrei uma certificação profissional para WordPress que oferece um curso gratuito, bastante técnico e voltado para sites de grandes demandas de acesso. A certificação é paga mas o conteúdo do curso é gratuito. A formação completa oferece 7 cursos e me parece bastante robusta.
- Advanced Professional WordPress Developer Certification
- Veja aqui um post que explica melhor essa certificação e por onde eu cheguei até ela.
Procurei livros, uma das formas mais fáceis pessoalmente para meu aprendizado, pois leio muito a noite, em trânsito em viagens e esse recurso de torna muito mais fácil sem a necessidade de computadores, tablets e acesso a internet. No entanto, depois de começar vários, comprar alguns, buscar outros tantos, desisti de ir por esse caminho. Não encontrei nenhum livro atualizado, didático e mesmo razoável que pudesse trazer esses elementos de aprendizagem.
Mas, e o que é preciso saber antes do ecossistema WordPress?
Pois é… Aqui a questão começa a ficar mais interessante e também desafiadora. Qual caminho seguir? Que tecnologias eu preciso dominar? Que conceitos preciso conhecer? Como preparar esse profissional? São muitas facetas que se abrem quando começamos a refletir sobre isso e, como professor e pesquisador, topei o desafio de transformar isso em um projeto de construção de um caminho de aprendizagem.
Nesse sentido, o conceito do “full stack developer” ajuda demais a pesquisar conteúdos e achar referências que te ajudem a compreender todas as tecnologias e como elas se relacionam que você deve aprender para efetivamente construir soluções usando o ecossistema WordPress.
Quando comecei a pesquisa por aí, abriu-se um caminho bastante frutífero de referências que começaram a me dar pistas por onde sistematizar as coisas. Veja uma das imagens que encontrei abaixo em um post na plataforma Medium e que propõe um caminho de formação por tecnologias para chegar no WordPress:

Outra postagem, mais atual e de um site Wordvell que produz vários conteúdos interessantes para desenvolvedores WordPress, propõe também uma ideia do que seria Full-Stack WordPress Developer:

A proposta deles é um caminho organizado em 20 passos:
- Aprender HTML, CSS e Javascript;
- Aprender PHP e MySQL;
- Explorar programação orientada a objetos;
- Aprender a usar GIT e GITHub;
- Aprenda WordPress: edição de conteúdos, painel administrativo e a estrutura de design da ferramenta administrativa;
- Conheça a estrutura do núcleo do WordPress: diretórios e suas funcionalidades;
- Entenda o que são os HOOKS: actions e filters;
- Crie blocos customizados com o Editor de Blocos do Gutemberg;
- Aprenda a desenvolver temas customizados;
- Aprenda a desenvolver sites responsivos para dispositivos móveis;
- Compreenda a API REST do WordPress para a geração de conteúdos dinâmicos;
- Aprenda a desenvolver plugins customizados;
- Domine os Custom Post Types (CPTs), Taxonomias e Campos;
- Compreenda os papéis (roles) e capacidades (capabilities);
- Desenvolva end-points customizados no formato APIs REST;
- Compreenda otimização de banco de dados para projetos de grande escala;
- Compreenda práticas de segurança para manutenção dos projetos;
- Compreenda otimização do desempenho para SEO e GEO e experiência do usuário;
- Compreenda técnicas de teste e depuração de código;
- Compreenda o futuro do WordPress como uma ferramenta Headless.
Certamente, essa sequência não é linear e uma coisa não deve vir necessariamente antes da outra, mas oferece uma abordagem geral muito útil para começar a sistematizar o problema e oferecer uma perspectiva de caminho que devo avançar nos próximos posts.